Remédios agonistas de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, tornaram-se fenômenos globais também no universo do emagrecimento rápido. Ao atuarem diretamente nos centros cerebrais responsáveis pela fome e saciedade, essas drogas reduzem o apetite, retardam o esvaziamento gástrico e favorecem perdas significativas de peso.
Com a popularização, muitas vezes fora de critérios clínicos rigorosos, o uso dessas medicações passou a despertar preocupação entre endocrinologistas, psiquiatras, psicólogos e especialistas em transtornos alimentares. Relatos clínicos indicam que, em alguns pacientes, a supressão intensa do apetite tem sido acompanhada por comportamentos alimentares extremamente restritivos, ansiedade em torno da comida e distorções na percepção corporal, levantando o debate sobre o possível surgimento de novos padrões de sofrimento alimentar associados ao uso das canetas emagrecedoras.
“Do ponto de vista da Psicologia, o uso dos remédios do tipo GLP-1 ultrapassa a questão do emagrecimento e toca em algo muito mais sensível: a relação que as pessoas estabelecem com o corpo, a comida e a sensação de controle.”
Na clínica, explica ela, comer não é apenas uma resposta biológica.
“O alimento regula emoções, alivia ansiedade, oferece conforto, estrutura rotinas e sustenta vínculos sociais. Quando uma intervenção externa reduz drasticamente o apetite, ela não atua só no corpo, interfere diretamente nesses mecanismos psicológicos de autorregulação.”
Essa interferência, segundo especialistas, pode ser especialmente delicada para pessoas que já carregam uma relação fragilizada com a alimentação e o próprio peso.
Vulnerabilidades que aumentam o risco
Indivíduos com histórico de dietas restritivas, insatisfação corporal, culpa alimentar ou transtornos alimentares prévios parecem mais suscetíveis aos efeitos psicológicos adversos.
“Nesses casos, a medicação pode reforçar uma lógica perigosa: a de que comer menos é sempre melhor, de que o corpo só é aceitável quando controlado e de que a fome deve ser combatida”, alerta Candice. O emagrecimento rápido, amplamente valorizado socialmente, tende a funcionar como reforço desse comportamento.
“A perda de peso vira uma validação externa que dificulta perceber quando a relação com a comida está adoecendo.”
Sinais de alerta além da balança
Especialistas apontam que alguns comportamentos podem indicar que o uso do GLP-1 está afetando negativamente a saúde mental:
- perda de prazer ao se alimentar
- medo intenso de comer “errado”
- rigidez alimentar
- culpa após as refeições
- dificuldade de reconhecer fome e saciedade
- ansiedade diante da possibilidade de interromper a medicação
- “Quando a comida passa a ser fonte de vigilância constante e medo, estamos falando de sofrimento psíquico, mesmo que o corpo esteja emagrecendo”, reforça a psicóloga.
Relatos clínicos e o surgimento de novos padrões
Profissionais de saúde mental vêm relatando casos de pacientes que, após iniciar o uso de canetas emagrecedoras, desenvolveram comportamentos extremamente restritivos e obsessão com peso e alimentação, inclusive pessoas sem histórico prévio de transtornos alimentares.
Esse conjunto de sintomas tem sido chamado informalmente por alguns clínicos de “agonorexia”, em referência à associação com os remédios agonistas de GLP-1. Embora ainda não seja uma categoria diagnóstica oficial, o termo reflete uma preocupação crescente dentro da prática clínica.
Outro ponto de atenção é o impacto emocional da interrupção do medicamento. O retorno do apetite, muitas vezes acompanhado de recuperação de peso, pode gerar ansiedade intensa, medo de engordar e comportamentos compensatórios, prolongando o sofrimento mesmo após o fim do uso.
Quando o emagrecimento é estético, o risco se amplia
O cenário se torna ainda mais delicado quando a motivação principal é estética, sem indicação médica clara.
“Nessas situações, o medicamento deixa de ser terapêutico e passa a responder a pressões externas sobre o corpo”, afirma Candice. Segundo ela, conflitos emocionais não elaborados acabam sendo deslocados para o peso.
“O corpo vira o lugar onde se tenta resolver inseguranças, aceitação e pertencimento.”
A Psicologia não condena o uso de remédios emagrecedores, mas ressalta que elas não podem atuar sozinhas.
“Sem escuta clínica e acompanhamento, o que se controla no corpo pode esconder um descontrole emocional silencioso. Em vez de promover autonomia, pode aumentar a dependência de soluções externas para lidar com inseguranças internas.”
Para especialistas, a prescrição ideal deveria envolver triagem psicológica, acompanhamento nutricional e monitoramento emocional contínuo.
Saúde vai além do emagrecimento
“Cuidar da saúde mental é perguntar não apenas o quanto se emagrece, mas como se vive nesse corpo, o que se transforma na relação com a comida e quais emoções estão sendo silenciadas.”
E conclui: “Quando o emagrecimento acontece à custa do silêncio emocional, não estamos falando de saúde. Controlar o corpo não resolve conflitos internos, apenas os adia. Cuidar do peso sem cuidar da relação com a comida e com o próprio corpo é trocar um sofrimento visível por outro, mais silencioso.”



